21 de fevereiro de 2008

Que país é esse?

Adriano teve uma infância pobre.

Familia humilde, morava nos fundos de uma casa sem pintura na periferia da cidade de São Bernardo do Campo, região do ABC Paulista.


Em frente a sua casa, havia um muro bem alto, onde vez em quando, os políticos lhes davam alguns trocados para pintar suas propagandas. Ele ouvia falar que, um homem conhecido, de fala simples e apartamento bacana morava perto do seu bairro.

A mãe era evangélica fervorosa da Assembléia de Deus. Com menos de 50 anos, aparentava uma senilidade atípica, com seus cabelos brancos, coque na nuca e saias mal costuradas. Seu pai, aposentado e analfabeto, foi operário a vida inteira e repetia o que o homem conhecido "piquetava" em frente a sua empresa. Agora seu pai era porteiro de um prédio do bairro. Ainda trabalhava porque era preciso. Seu irmão, mais velho, trabalhava desde cedo. Nunca estudou, o orgulho da familia. Estudar era coisa de gente desocupada. Ninguém podia se dar ao luxo de parar tudo, só pra estudar.

No entanto, Adriano não concordava. Estudante em escola estadual desde que nasceu, daquelas raras figuras que querem aprender, amar o estudo era muito difícil em meio a tanta droga e "distração" no caminho. Ele se destacava, era alto, bonito, de poucas palavras e quase sem amigos. Tímido, até que encontrou seu grande amor aos 14 anos. Ela era diferente. Classe média, estudo particular, natação, aulas de inglês e interessada em religiões do oculto. Ele se encontrou! Enquanto a familia toda o tratava como vergonha, por não trabalhar e não ir à igreja, ela admirava sua ambição pelo estudo.

Ela visitava sua casa de madeira e sua familia, sem problemas. Sofria preconceito por ser agnóstica. Ele morria de vergonha de tudo aquilo. Sentia vergonha de estudar. Sonhava em cursar engenharia química, sua fascinação.

Com o incentivo dela, ele passou nas duas escolas técnicas estaduais mais concorridas do estado. Passava o dia inteiro em uma. A noite toda em outra. Formado, aos 18 anos, em dois cursos técnicos, sozinho, sem nunca trabalhar e isolado pela familia, conseguiu seu primeiro emprego. Salário? Maior que toda a renda da casa.

Agora era guardar dinheiro e estudar para o vestibular. Universidade pública é difícil, mas ele não desistia. Frequentou cursinho comunitário sem pagar, passou noites em claro, enquanto o pai gritava de cinta na porta, pedindo dinheiro para as contas do mês. No último natal, um tio dele puxou um drink de Cidra na barraco, brindando ao fracasso dele. Pobre não pode gastar dinheiro com coisa inútil, como faculdade e cursos. Essa noite ele chorou escondido no banheiro, e prometeu a si não decepcionar a namorada.

Há dois meses, Adriano foi demitido do emprego. Contrataram um estagiário de engenharia para o lugar dele. Hoje ele soube que não passou na sonhada faculdade. Ele faz parte da discriminação do seu país, o mesmo governado agora por seu vizinho de bairro, homem conhecido e de fala simples.

Adriano é 100% branco e pobre.


* história verídica.

10 comentários:

  1. O tal barbudo mora logo aqui, um quarteirão de minha casa.
    O prédio é simples, mas quando ele vem pra cá o esquema de segurança é grande.
    O poder é tão fascinante, não é?

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  2. Histórias de sucesso geralmente são cíclicas até terem um final feliz.
    Geralmente assim. Esforço, suor, e não reconhecimento. Esforço, suor e desapontamento. Esforço, suor, alegria, desapontamento.
    Levanta a cabeça patim amarelo!!
    hahaha

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  3. Ow droga, o comentário não foi...

    É fod@, mas é assim mesmo: na vida real, as vezes dá merd@. Final feliz, só em história pra criança.

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  4. Acho que apesar dos pesares, a história dele ainda nao terminou.

    O mundo é foda (eu), " a existência é náusea" (Sartre), "é vaidade, correr atrás do vento" (Eclesiástes), "viver é sofrer" (Schopenhauer), "no mundo tereis afliçoes" (Jesus)... todos os credos e filosofias dizem isso, o mundo sabe que o mundo é estranho e injusto...

    Mas a história dele nao terminou, e nem a nossa... A gente precisa continuar lutando contra isso.

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  5. O que é foda, foda mermo mina, é que essa história, além de verídica, não é única. Não mesmo!

    E o foda é pensar que enquanto N Adrianos da vida estão aí, batalhando por um pedacinho de sombra nesse mundo, vários amigos do homem conhecido e de barba simples acabam ficando com a maior parte da sombra sem nem precisar fazer mta coisa pra se garantir.

    Tudo é mto foda, mas... cara, adorei ler isso agora! Chegar da faculdade depois de um momento de "será que é isso mesmo que eu tenho que fazer?" e ler isso, me inspirou. De verdade!

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  6. Nossa... e pensar que tantos "Adrianos" existem por aí, daqueles que se esforçam, suam a camisa e outros de melhor condição lhe roubam a vez.

    Estou com os olhos cheios dáágua e torcendo para que a história dele tenha um final feliz.

    Beijos

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  7. kade a juliana pra comentar isso?

    uahsuhas

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  8. Você já sabe minha opinião, mas não custa deixá-la aqui, afinal não é justo comentar só nos posts versão light....rsrs...

    bom, não dá pra engolir as cotas nem no sentido de que elas servem ou servirão para minimizar a questão racial, em favor dos negros, no caso. Leia o livro "Não somos racistas", de Amir Kalil e veja uma visão interessante, co números, pesquisa, analises.

    No mais, o Brasil deveria investir em Educação na Base, provavelmente, não haveria necessidade de cotas no ensino superior. E mesmo se houvesse, a pobreza é a única forma de engolir um sistema de cotas, não a cor.

    A história é comovente e mais comum do que se possa imaginar, mas o final e a foto, Cafeina, você matou a pau.

    abraços

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