2 de dezembro de 2008

10 dias e meio são 253 horas

São 253 horas. Dez dias que você se foi.
Desde aquele último momento, eu sentia que você um dia partiria. Não imaginava que seria no dia seguinte, mas pela teoria do risco, um dia você iria. E foi. Partiu sem deixar rastros, pistas, pegadas. Como herança, uns trapos, alguns cheiros, fotos paralizadas. Nada que lembrasse realmente você. Ou o que só eu via de você. Ou sentia. Ou tinha. Ou não tinha.
A cerimônia no sétimo dia foi respeitada. Guardei luto por você. Um luto libertino sem culpas, de uma alma egoísta que não se importa com o morto e sim com o abandono que este deixara. Tiveras que morrer logo agora. Morrer pra minha vida? Poderias ter falecido para todos, menos só para mim, Pulha!
Hoje, duzentas e cinquenta e três horas depois da última troca de olhares, agora, pego-me em buscas das palavras que desconheço, para justificar essa perda. E tenho que lhe dizer, sim, à você aí, em espectro, desaparecido das minhas córneas mas enterrado nas minhas veias feito nicotina de um fumante antigo, digo-lhe que não, não estou conformada. Ora, e de que muda a vida com isso? Nada! E há tantos 'nadas' dentro dessa história que começo a concordar com quem diz que meus textos andam sem sentido. São reflexos deste caso doentio. Que só existiu no meu maravilhoso mundo imaginário.
E agora, duzentas e cinquenta e três horas e cinco minutos do nosso não-adeus. Só queria lhe dizer que mudei o armário de lugar de novo, sabia? Ah, e minha árvore de natal está pronta. Debaixo dela, uma sacola com dois presentes. Um par de meias brancas que você estava precisando e 3 cuecas básicas, tamanho G (a vendedora me disse que a fôrma era pequena), que você também estava precisando. Estão lá, debaixo da árvore. O embrulho colorido reflete a luz do pisca-pisca. E estão lá, debaixo da árvore, ao lado da TV, em frente ao sofá, de cara para varanda. Queria que você soubesse também que, tenho feito massas ótimas, novas receitas, até lasanha aprendi a fazer do jeito que você gostava.
Sabe aquela toalha que só você usava? Pois então, não é mais só sua, mas não fica bravo comigo, eu não tive culpa, você que nos deixou. Sabe aquela foto nossa, ao lado daquelas outras, junto com o aquário e as velas? Ops, queimou. Sem querer acendi um incenso e uma vela ao lado... sabe como é... foi incinerada. Se eu imprimi outra? Hm, até pensei, mas minha avó sempre diz que foto de falecido não nos traz coisas boas e ainda deixa o pobre mal descansado. E eu quero muito, meu caro, seu descanso eterno...
Só para cessar este confessionário, digo-lhe por último, duzentas e cinquenta e três horas e doze minutos do nosso último toque, que me lembrei das inúmeras vezes que você dizia que eu não viveria uma semana sem você. Dizia que eu sofreria um infarto sem você. Pretensioso até, tinha certa certeza que eu não aguentaria. Pois bem, meu amor, você estava certo. Eu não sobrevivi. Infartei. Sim, não aguentei.
No entanto, eu moro em bairro de judeus, amor, não tinha como não ressuscitar ao terceiro dia. Ao contrário de ti, morador de beira de estrada, virou estrela cadente e desapareceu como milhares delas. Boa vida, eu sem você, você sem ninguém.

4 comentários:

  1. Vixe...

    A protagonista apostou mto no negolçu aí; a separação foi feia pr'ela hein

    Q meda... ui

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  2. Lembrei de novo da músga do [acho] Zezé diCamargo e blá blé blí

    Seguinte, moça: de todas as pessoas que eu pseudo conheço no mundo, VOCÊ é a que eu menos apostaria que escreveria um troço desses, acredita? Não sei, não te acho insensível, MUITO PELO CONTRÁRIO, você, creio eu, é puro sentimento.

    Mas uma coisa é SER sentimento, e outra é EXPOR sentimento. E o que vc fez aí, e que anda fazendo ultimamente por aqui, cara... eu só posso bater palmas para você.

    Porque quem expõe seus sentimentos, suas feridas, suas mágoas, cicatriza muito mais rápido, e não corre o risco de virar um poço de amargura, como esta que vos fala.

    Keep the faith, honey.

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  3. Eu gostei.
    Já desabafei ( e desabafo ) de uma forma mais agressiva, às vezes até infantil. Mas o continuo fazendo, por concordar com a ana p.

    Keep the faith, honey [2]

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