
Quando querem tornar as coisas mais fáceis para nós, os leigos (leia-se os burros) compreendermos, os economistas costumam recorrer à analogia doméstica. Um país é como uma família, não pode gastar mais do que ganha, dizem. Um país é como uma família, precisa ser realista no seu orçamento e responsável nos seus gastos. Senão um país, como uma familia, vai à bancarrota.
Como todos nós (os burros) temos ou tivemos uma família, fica fácil entender o que os economistas querem dizer. Ainda mais se eles falarem devagar. A analogia é até algo enternecedora, pois lembra aquelas velhas aulas de aritmética em que os problemas sempre envolviam uma situação doméstica com a qual podíamos nos identificar. Você eu não sei, mas eu estudei aritmética acompanhando os repetidos dilemas de mães obrigadas a dividir quatro gomos de laranja entre cinco filhos, e até desafios maiores à sua engenhosidade e senso maternal de justiça.
É verdade que quando passávamos para problemas mais complicados, trocávamos o ambiente familiar pelo mundo lá fora, com suas contas difíceis e suas tragédias latentes. Quanto tempo levaria para que dois trens vindo de direções opostas nos mesmos trilhos, numa velocidade, se chocassem? Mas ainda eram narrativas, ainda tinham ação e personagens. Eu me distraía tanto pensando naquelas histórias, nas suas possíveis vitimas - filhos esquecidos pela mãe e traumatizados para toda a vida, os prováveis mortos e feridos no terrível acidente ferroviário - , que esquecia da aritmética.
Existe o mesmo perigo de ficarmos imaginando a família-modelo dos economistas e esquecermos sua lição. O pai (Egídio) é um exemplo de controle e sobriedade, como os economistas no poder gostam. No passado se excedeu, gastou mais do que podia e foi obrigado a fazer um empréstimo. Mas está pagando o seu empréstimo responsavelmente, como os economistas no poder recomendam. Mesmo porque precisa manter o crédito para conseguir empréstimos para pagar o seu empréstimo. Mas ja que estamos no terreno do reducionismo didático, me ocorre uma situação familiar supersimples: um dia o seu Egídio é obrigado a escolher entre alimentar os seus filhos e pagar a sua dívida. Qual o exemplo que ele deve dar para a nação? Está certo, melodrama não. Mas se vamos recorrer a exemplos simplistas, então sejamos simplistas até o fim. Pois a escolha diante da nação é exatamente a escolha do nosso pai de familia imaginário.
Salve Veríssimo.
O Mundo é Bárbaro (e o que nós temos a ver com isso) - Luis Fernando Veríssimo
O mundo é bárbaro e a vida é uma merda, então vamos beber.
ResponderExcluirDá-lhe Veríssimo.
ResponderExcluirComo é difícil escapar do Condicionamento...
Curioso, sempre q ouço ou leio a palavra Economista me vem a cabeça os cães d Pavlov ou os pombos d Skinner...
Mas a vida é assim "diz estudo". =/
ResponderExcluirOi, sei que a frase é tua, isso que linkei pra cá. Beijo.
ResponderExcluirEntão alguém mostra essa crônica para os nossos governantes, pq parece que eles têm se tornado especialistas em serem pais de família sádicos.
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