15 de junho de 2009

Frozen when your heart's not open

E sentia tanto frio que parecia que meu sangue havia sido substituído por litros de sorvete de morango, daqueles fora de estação, azedo mesmo e feito em casa. Cada parte de mim foi se congelando numa velocidade lenta e já sentia alguma coisa trincar aqui dentro. Começou em um dedinho mindinho do pé do esquerdo (ou seria do direito? Também sou dislexa quanto a senso de direção), quase assintomático sabe? Era só um formigamento daqueles que sentimos ao sentar em cima e quando levantamos o chão parece ter desnivelado. Mas depois já não sentia dois, três, quatro, cinco, seis, sete (outro pé, não tenho mais de 5 dedos em cada)... E quando fui levantar o chão não era íngreme, ele simplesmente não existia mais. Assustada, sentei novamente e jurei nunca mais levantar e sentir aquele pânico de Tour Eiffel do futuro. Todavia, quando fui ver, meus quadris já não tinham a mesma temperatura. E daí não senti mais o maldito assento. Fui obrigada a deitar para sentir ainda algum contato com alguma coisa, e toda aquela gosma de sorvete de morango azedo e esquecido no freezer que injetaram em mim foi se espalhando pelo meu corpo, fez sístole, diástole, trincou meus vitais, e fez-me ficar alí, em completo desespero resfriativo como se não desse tempo de nascer o sol e me derreter, ou pior ainda, como se algum moleque travesso de rua me confundisse com um boneco de neve e, delicadamente, enfiasse uma 'bicuda' com seu chinelo de rua, fazendo de mim pequenos e cortantes caquinhos. E enquanto essa gosma de sorvete de morango azedo congelada há anos no freezer de um bar imundo subia a fim de tomar conta dos meus pensamentos e não me deixar reagir, fui sentindo o gosto daquilo na minha garganta, como um refluxo incômodo na minha boca e em meus dentes sensíveis antes tratados com pasta dental para dentes sensíveis. Neste exato instante tentei pensar em alguma entidade, alguma oração, alguma fé, alguma paixão, algum motivo seja lá qual acreditasse, para me salvar deste gosto horrível do qual eu preferia que congelasse de vez os meus pensamentos, me deixando ali, trincada a sorte do tempo, para me derreter em pedacinhos cortantes do que sentí-lo por muito tempo. Mas como não encontrei nada que pudesse pedir ou pensar, preferi que fosse o mais rápido possível. Tudo isso porque eu realmente odeio sorvete de morango azedo congelado.

9 comentários:

  1. Eu passei por uma experiencia igual, talvez porque eu não goste de salada de beringela congelada. Comi e meu estomago conversou com a tal salada congelada a tarde inteira.Nem pensei em fazer um post como este, fica pra próxima vez.

    Beijão do amigão

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  2. Eu detesto morango, mas gosto de sorvete de morango.

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  3. Com certeza Bela, afinal alguém como eu ou vc simplesmente cuspiria o sorvete fora e ficaria resmungando.

    A Cafê cospe (no bom sentido) essa delícia d texto.

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  4. Ainda se fosse sorvete de morango beeeeem doce, tava valendo! :D

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  5. Gosto de morango...mas não gosto de sorvete, como também não gosto de chocolate, rs...
    Um lindo
    dia para você!
    Cris

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  6. Cafeína, preciso do nome dessa pinga que anda tomando, tô precisando ficar doidão também!!!

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  7. Odeio morango. Odeio sorvete de morango. Odeio bares imundos que guardam sorvetes azedos. Odeio não sentir meus dedos dos pés.

    Temos muito em comum. Vou seguir teu blog.

    Rs

    ℓυηα

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  8. Prefiro picolé de uva ou limão.

    Sorvete com batata frita.

    E queimar os neurônios com um conhaque que vai descer queimando a gargante e inflamando minhas veias.

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