13 de julho de 2009

Como um dia de domingo...


Estes dias andam realmente a passos tortos. Talvez não seja só comigo, ou seja, enfim, mas a morte do ídolo do pop teve consequências em um monte de sentimentos que moravam nos quintais da minha consciência.

Eu nunca soube lidar bem com expressões como "Nunca mais" e "Para sempre". Ambas me dão calafrios. Tudo que se mostra irreversível nitidamente não é minha matéria preferida. Não entendo até hoje o porquê mas lido de forma estranha quando passo por momentos destes. E nos últimos dias, pensamentos de perda têm passado incessantemente pelos meus dias. Pseudos perdas, fatos reais, futuros e passados. E claro, como de praxe, estou lidando da pior forma possível...

Talvez, não, talvez não, com certeza (e morbidamente digo, que espero que sim), hoje foi a prova final deste teste de passa ou reprova sobre como lidar com momentos deste tipo. Era fim de tarde, dirigia de volta para minha casa, numa avenida conhecida de São Paulo, em um domingo que nasceu lindo e terminava frio. Naqueles trechos em que não paramos por medo da violência, meninos de rua aguardavam nas calçadas alguma oportunidade para conseguir algum trocado, a qualquer custo, afim de financiar famílias aos pedaços, seus vícios ou mesmo pela sobrevivência. Semáforo vermelho e olhos atentos pelo medo dos motoristas. Havia um Celta a minha frente. Nele, aparentemente um senhor no volante e uma passageira. O semáforo se abriu, buzinas, pressa, carros desviando, marcha primeira, freio, quase bati, o Celta não andou.

Na minha frente, quase pronta para ser mais uma a disparar a buzina, o Celta não saía do lugar. Carros davam ré, xingavam, gritavam, buzinavam e saiam para suas casas. Enquanto tentava sair ouvi um grito. Era da moça. Ela saía do carro gritando com um celular nas mãos. Encostei meu carro, tomei coragem e sem pensar fui até ela. Nisso eu vi... o senhor era o pai da Marcela. E ele estava lá... duro e inconsciente, sem ouvir os xingamentos que recebia dos motoristas que passavam.

Crianças de rua se aproximaram. Envolta de toda testosterona que Tupã me deu, fechei a cara e disse com voz de DilmaRousseff, calmamente, que não sonhassem em se aproximar do carro. Estranhamente, eles devem ter ouvido a voz de algum Caboclo porque sumiram. Carol estava no telefone com a mãe dela. Liguei para 193.

Enquanto tentava acalmá-la, fui até o Celta. O senhor não tinha nem pulsação. Olhei para o banco atrás. Um bebê dormia na cadeirinha. Era Gabriel, filho da Carol que aos berros me pedia para não acordá-lo. Neste momento senti uma impotência vergonhosa. Merda de curso universitário que eu fiz e de diplomas que tirei. Eu não fazia nem idéia de como tentar uma reanimação do senhor. Na verdade, eu aprendi com um boneco no curso para tirar habilitação, mas óh, com pessoas é bem diferente e infelizmente, aquele boneco agora parecia mais vivo do que o motorista. Raiva de mim, sem coragem alguma de tentar. Carol dizia o mesmo, enquanto chorava e gritava para o mundo no meio da rua. Dois carros pararam. Moços com camisas de time que só fizeram nos dar companhia porque estavam mais assustados que a gente.

O resgate chegou depois de 10minutos. Uma eternidade. Um dos bombeiros me disse que não iria adiantar reanimá-lo, indícios de infarto fulminante. Na verdade acho que disse isso só para nos sentirmos melhor. E claro, sugeriu que aprendessemos todo o procedimento. De que me adiantaria se eu não teria coragem de fazê-lo? Um dos bombeiros, talvez num dia ruim, disse que resgate não pode levar corpos. Ele iria chamar o orgão responsável e que ficássemos lá... horas a espera. Caboclo Cafeína tentou usar alguma coisa que soubesse na vida e lembrou da sua persuasão. Consegui que eles levassem até o hospital mais próximo e dissessem que havia morrido no percurso. Carol me pediu que ficasse com ela alí até a mãe chegar. Dona Maria Cecília chegou logo após a partida do resgate, num taxi. Pegou o celta e foram até o hospital mais próximo informado. Carol disse que não contaria a mãe até chegar o momento. E Gabriel, até a partida delas, não acordou nem pra me dar boa tarde.

Voltei para meu carro, jogado na calçada, avistei as crianças de rua me olhando de longe, um deles mais petulante correu até mim e perguntou o que havia acontecido. Perguntei a ele se ele tinha familia. Ele respondeu que só tinha um pai mas não gostava dele. "Pois é, gatinho, olha como é a vida, aquela moça tinha um pai e adorava ele."

No som do meu carro tocava A-ha... e minha ligação com isso fica pra outro dia - chegando em casa decidi que mereço um vinho...

7 comentários:

  1. Realmente os conteúdos dos posts casaram. Ficou até estranho ler um depois do outro, concordo. Vamos falar de alguma coisa mais alegrinha? Sei lá, cara. Esse papo tá me deixando torto.

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  2. Vc fez o que pode, Cafê.

    Mas a gente se ilude e esquece que a morte é inevitável e ninguém é deus.

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  3. Pouts Cafê! Que merda hein ... E eu tentando puxar assunto com você no msn no domingo a noite !
    To me sentindo besta agora ...

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  4. Eu gosto do que é definitivo, gosto de ciclos que se fecham, e tal.

    No entanto, não consigo assimilar e muito menos aceitar a morte.

    Logo, o que eu disse antes não faz o menor sentido. =\

    ℓυηα

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  5. Nossa... acredita que fiquei toda arrepiada aqui só de imaginar a cena? Meu Deus... que situação horrível! Eu queria estar ali pra ajudar, no hospital já reanimei muita gente. Nunca aconteceu de eu ter que usar meus conhecimentos na rua, ainda bem, porque no hospital temos todos os subsídios necessários para o atendimento, na rua só temos nós e olhe lá, depende do estado psicológico de quem vai atender, pode até atrapalhar.
    Que coisa! Coitada dessa menina, passar por uma coisa dessas. Ninguém merece!

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  6. Eu já havia lido este post, voltei hoje pra comentar.
    Não sei o que faria numa situação dessas, não tenho a mínima noção.

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  7. RCP

    Bom... se foi fulminante mesmo não teria jeito;
    D qq modo, complicado até d achar 1 vídeo decente d 1ºs socorros q use modelo vivo e não boneco e cujos participantes do treinamento estejam levando o mesmo à sério ou ao menos não caindo na gargalhada a todo momento (mesmo qdo se trata d estudantes d medicina ou enfermagem). Vou te falar viu...

    Tecnicamente, os melhorzin q eu achei foram
    esse aqui - http://migre.me/3JZR esse outro - http://migre.me/3K0l & esse outro aqui http://migre.me/3JYE e olhe lá viu rs

    E, como aconselha uma amiga médica, por mais tosco q pareça procurar vez ou outra simular c/conjuge, amigos enfim ...gente!

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