11 de maio de 2010

Você decide! Decide?


Meados do ano 2000. Eu tinha 17 anos. Eu namorava o perfeitinho que tinha uma familia evangélica que me odiava. Diziam que eu estava levando seu caçula para o inferno ou coisa assim. Eram humildes. Eu o ajudava e o amava muito. Éramos muito parecidos em personalidade e tivemos toda aquela mágica do primeiro amor. No meio dessa confusão toda durante o namoro, conheci Márcio.

Márcio tinha 22 anos, recém-formado em jornalismo e trabalhava numa grande mídia da imprensa. Falava bem, parecia estável e extremamente inteligente. Na verdade, pra uma moça de 17 anos no primeiro ano da faculdade e começando ainda a trabalhar, qualquer ser humano que falava de outros assuntos sem erros gramaticais já parecia muito inteligente. Ele não parecia, ele era. Foi o único homem até hoje que eu ficava muda enquanto ele falava sem parar. Ele contava como eram os bastidores da imprensa, dos amigos famosos, da familia bacana, da faculdade supimpa, dos sonhos do futuro. Ele era um partidão mesmo.

Márcio sabia que eu namorava e nem assim desistiu. Insistiu meses para que saíssemos nem que fosse para um café. Meu namoro estava cansativo com tantos problemas familiares alheios e eu já conversava quase todos os dias com Márcio por e-mail e telefone. Eu não conseguia ser 'eu mesma' com ele. Ele parecia tão culto e informado que eu tinha muito medo de parecer uma moça de 17 anos e ficava quieta quase o tempo todo, só elogiando suas histórias. Até que um dia ele apareceu na minha faculdade. Eu disse que estava pensando em terminar meu namoro mas tinha dúvidas. Trocar o duvidoso pelo certo sempre foi um problema pra mim. Acredito ter uma vertente masoquista que curte tudo com muita emoção e pouca paz. Vertente esta que está enterrada, eu espero.

Dias atrás, estava vasculhando caixas e papeis antigos quando encontrei um e-mail impresso de 2000. Onde Márcio dizia que eu devia escolher entre o perfeitinho e ele. Se vocês já me conhecem um pouco, sabem que fiquei com o problema e lógico que acabou mal. E um ano depois tentamos sair, já solteiros, e ele me pagou um café e sumiu, dizendo que eu não o merecia mais. Dei razão pra ele e sofri por algumas horas. E por coincidências da vida hoje ele é um jornalista famoso, feliz e casado. E o conheço pela internet e pelo twitter. Óbvio que ele pediu que não o identificasse neste texto alegando que 'mulheres não lidam bem com histórias antigas'. E concordo, não lidam mesmo Márcio. Transcrevo o e-mail que foi guardado por 10 anos:
Cafeína,
Acabei de falar com meu ex-professor da faculdade, que é diretor de produção da Globo. Sugeri uma ótima história para ser usada no Você Decide. Uma estudante de Direito de 17 anos conhece um jovem jornalista de 22, que representa boa parte de tudo aquilo que ela sempre sonhou para um companheiro. Os dois deixam de lado o chat e resolvem se falar por telefone. A química é imediata! Eles conversam como se conhecessem há anos e um parece completar o outro. Surge então um pequeno problema: ela é comprometida. Namora há 1 ano com um químico de 19, que só pena nele mesmo e, apesar de mais velho, não consegue fazer nada sozinho. O pretendente virtual seria a solução para toda a mesmice? Ou o primeiro passa para uma vida vivida intensamente em todos os sentidos? O namorado era o único empecilho, até porque ela estava muito envolvida com a família dele e principalmente com a sogra enferma. O que fazer? Continuar naquela "vidinha" por pena do namorado e da difícil situação da familia dele ou largar tudo e ficar com o novo amigo, buscando a própria felicidade?
Contei a história pra ele, com todos os detalhes, crente que tinha em mãos uma excelente história, para bater todos os recordes de audiência do Você Decide. Qual não foi a minha surpresa quando ele agradeceu, mas explicou que o argumento não poderia ser utilizado, por se tratar de uma decisão "fácil" que não criaria polêmica entre os telespectadores. Segundo meu professor, 99% das pessoas votariam SIM, para que a estudante de Direito largasse o marasmo e ficasse com seu "príncipe encantado". Pensei melhor e acabei concordando com ele...
A vida é assim...
Uns beijos,
Márcio - 25/07/2000 - terça-feira

8 comentários:

  1. Boa história, mas real é que ninguem larga ninguem assim do nada mesmo o mano sendo o perfeitinho descolado e cheio de vida pela frente e podendo proporcionar algo de bom pra alguem e no final a coisa fica assim o mano se supera e tem uma outra vida pela frente e ela acompanha tudo q ele faz pela internet e tv. Passione huahuahauhau

    Rodox.

    Proibidoler.

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  2. Escolhas, a vida é feita delas... você não decidiu, apenas aceitou!

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  3. Eu não sei depois de ler esse e-mail, sei lá eu fico com duas impressões ou esse cara era um excelente argumentador ou ele era muito arrogante. kkkk!

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  4. Não teria dado certo com o Marcio. Se vc nem conseguia ser vc mesma do lado dele, quer sinal mais claro que o negócio não vai pra frente?

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  5. Nem um pouco modesto hein rs

    Mas criativo, inventou até 1 estória c/1 diretor d tv c/final moral e tdo, nem um pouco sutil pra se colocar como "a última bolacha do pacote"

    Sinceridade?!
    A vantagem do "Vc não o merecia" q ele lhe enfiou bunda adentro ou goela abaixo ( como preferir ) é q tendo vindo c/ano d atraso, te livrou d um "Ah, se" em relação ao outro, ou seja, um possível remorso d ter abandonado o "problemático" num momento difícil ( problemático/momento difícil... isso tb não deixa d ser um pleonasmo hein rs )

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  6. Olha não achei o cara arrogante, e sim vi uma sinceridade de alguém que sabe o que é.
    É dificil quando existe a possibilidade de ficar com alguém que pode mudar tudo. Pode ser pra melhor ou pra pior...o problema é que não dá pra saber.
    Perdi chances com mulheres ótimas quando estava com namoradas "café frio" por uma certa preguiça emocional de ter que passar por TUDO de novo.
    Escutei uma vez (não sei onde) que amores pendentes/inacabados são sempre perfeitos. Achava bobagem...mas hoje em dia vejo uma certa verdade nisso.

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  7. Eu já larguei o certo e me joguei no duvidoso que não deu certo, também...

    Não dá pra prever essas coisas. O que dá pra ter certeza é que é muito mais fácil decidir quando a gente só age com a razão.

    Eu tô agindo com o coração de novo e tô mega depressiva, total masoquismo hahaha

    Beijo Cafê.

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  8. Hahaha, adoro seus contos e histórias, essa ai é muito bacana.

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