22 de junho de 2010

Mas você sabe qual é o motivo?

Você acorda já quinze minutos atrasado para mais um dia comum da sua rotina. Levanta, escova seus dentes e coloca o leite para esquentar. Apressa o passo para tomar um banho, vai até o quarto trocar a roupa e verifica seus documentos. Ouve um barulho, corre para cozinha e seu leite já ferveu sujando todo o fogão. E de repente, por uma bobagem dessas, você sente uma vontade imensa de chorar. Sentar no chão sujo e chorar feito criança. Soluçando em desespero. Por causa de um leite.

Você não tem tempo para entender essa angustia, deixa a sujeira pra lá, pega o elevador, coloca os pés na rua e espera seu ônibus enquanto começa uma garoa fina. Seu ônibus chega, as pessoas começam a se acumular naquele toldo e você quase não consegue entrar na condução. Aquele amontoado de gente, você em pé, um casal discutindo no fundo, você passa pelo cobrador e o trânsito está parado. Aquele cheiro, aquelas pessoas e, de repente, por uma situação normal dessas que você passa tranquilamente todos os dias, você sente uma vontade imensa de chorar. Encostar no colo de alguém que diga que vai te proteger, ser abraçada e chorar, chorar feito uma mulherzinha mimada e indefesa. Por causa de um ônibus.

Você segura o instinto, encara o dia como todos os outros, esquece das razões, começa o seu trabalho naquela mesa repleta de papeis na caixa de entrada, o sistema caindo, a conexão fraca, os colegas comentando que o patrão fará uma reunião de emergência, a hora do almoço passando e aquele lanche de ontem esquecido na bolsa salvando sua gastrite até que uma boa alma lhe trás um copo de café quentinho para seus cinco minutos vespertinos de respiração. O café escorrega e cai na sua mesa. Você salva os papeis, nada foi perdido mas mesmo assim, de repente, por uma acidente que acontece todos os dias com todo mundo, você sente uma vontade alucinada de chorar. Correr para o banheiro, sentar no vaso, colocar as mãos no rosto e chorar de gritar! Tudo por ter derrubado um copo de plástico de café.

Sua mesa está limpa, o horário terminou, o trabalho ficou pra amanhã e você volta para sua casa. A sujeira da manhã ainda está no chão da cozinha. O porteiro entregou sua conta de celular e uma mala-direta que uma imobiliária que você nem conhece endereçou no seu nome. Na tv, o Jô Soares está entrevistando aquele ator que você ouviu falar mas não assistiu a novela. Melhor desligar a tv, tomar outro banho e dormir para não se atrasar amanhã.  Você liga o chuveiro, procura o sabonete e não encontra. Acabou o sabonete e você esqueceu de comprar. E finalmente, por causa de um sabonete, você desaba num choro doído debaixo d´água, por causa daquele maldito sabonete que sua demência esqueceu de comprar e agora te obriga a tomar um banho todinho sem espuma alguma, você sente suas pernas fracas, tem vontade de escorregar pelos azulejos e sentar no banho como naqueles filmes dramáticos e berrar ao mundo o quanto é insuportável tomar um banho sem sabonete. Tudo por causa da falta de cheiro e espuma.

Terminou, o escuro enfim, seu travesseiro lhe deseja boa noite e você mal tem tempo de pensar no seu dia. Porque daqui, escrevendo de fora, um leite, um ônibus, um café, um chão sujo ou sabonete não causam tamanho desespero. O que está acontecendo? Quais são suas feridas invisíveis? O que tanto você esconde de você mesmo? Você sabe, de verdade, qual é o motivo?

13 comentários:

  1. Eu aqui de novooo... :D

    Realmente, Café, existem dias que são absolutamente normais, mas que parecem ser uma catastrofe...
    São as feridas escondidas que gritam de vez em quando, fazendo-nos chorar por qualquer coisa, porque chorar nos fará lembrar delas...

    Beijo :D

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  2. ai socorro, eu vo já sentar no chão aqui mesmo da minha sala e chorar até gritar e depois começar a riri que nem uam doida morrendo de vergonha dos colegas. Eu já quase fiz isso, na verdade só faltei sentar no chão e gritar.
    Quanto a todas as perguntas, juro que gostaria de responder mas pra isso seria preciso um café e um cigarro e um bom ouvinte.
    Beijos cafeína querida! e em dia sem pequenas catástrofes ( e sem as grandes tb)!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Lembram da expressão "Rir pra não chorar" ou "...pra não brigar" pois então...

    Conheço uma amiga q diz q qdo se sente assim nessas situações corriqueiras, ri chorando ou chora d rir, pra não chorar ...ou brigar rs

    D qq modo é bom sinal ver q mais pessoas começam a tentar olhar as florestas em meio ao nevoeiro, apesar d mtas por não enxergarem além das árvores, continuam a se deixar afogar pelas gotas d'água q fazem transbordar um roll d coisas q ao longo da vida foram, são e serão vistas, sentidas, esquecidas, rememoradas, adquiridas, alimentadas; sejam reais ou imaginárias, físicas ou mentais; Percebidas ou não, represadas, ou não...

    Post na mosca ( + 1 rs )
    Bjo & Colo ;)

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  5. No meu caso, eu diria que tudo isso não passa de uma TPM!!

    rsrs...

    toda vez que fico desse jeito, tudo se resume a minha TPM... haha

    ótimo post

    passa lá no meu blog :)
    bjoo

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  6. Poxa Nana, e eu ia comentar aqui justamente que ninguém tinha ainda colocado a culpa na TPM rs...

    Acredite, poucas vezes é a TPM, e homens não tem TPM e as vezes se sentem assim. Mas como deixei livre no texto, cada um tem seu motivo né?

    bjo, obrigada por comentar ;-)

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  7. Na verdade, a maioria das vezes eu tenho mais é vontade entrar no modo "Incrível Hulk" do que de chorar.

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  8. Isso é TPM. Ou Típica Porcaria de Mulher.

    Homem da primeira vez que tem essa vontade, xinga, grita, manda o mundo inteiro tomar no cú, (se for uma situação anormal, até chora) e ok, voltamos a programação normal.

    Mulher é que se retrai e fica se segurando.

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  9. Andarilho anda tão testosterona rs

    (andarilho anda é ótimo rs)

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  10. Posso falar?
    Você ARRASA!
    Disse tudo!

    Sem mais!
    Hahaha
    Beijo, querida!

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  11. Cara, chora! Eu tenho isso direto, mas só chego nessa fase quando passo primeiro pela fase de rir (de desespero), de bater com força na mesa e xingar como um estivador e só aí eu choro. Quando chega no choro é pq a situação está calamitosa. Aí eu paro, penso, organizo as ideias e começo tudo denovo.
    O motivo? Não tem motivo! Ou tem vários motivinhos pequenininhos que vão acumulando e viram um "motivão sem motivo". Não é TPM (às vezes é), é saco cheio, é vontade de fazer outra coisa, é vontade de não fazer nada. Eu ainda prefiro chorar à descontar nos outros...

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  12. Gostei do seu texto...me fez pensar sobre a vida, sobre o que a gente esconde da gente mesmo, só pra não ter que chorar! Isso que você relatou, é algo que acontece com todo mundo...são tantas as emoções que deixamos pra trás, que, em determinado momento, aflora! Isso me fez lembrar de um poster que ganhei do meu tio avô num dia de Natal e pendurei, toda "felizinha" na melhor parede do meu quarto, quando ainda era "pré aborrescente" (devia ter uns 13 ou 14 anos). E, escrito em Espanhol, tipo coisa de Che Guevara, estava o seguinte velho "d(e)itado": "Algum dia, impreterivelmente, há de encontrar-te contigo mesmo...E só de ti depende, que seja a mais amarga das tuas horas... ou o teu momento melhor!

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