8 de julho de 2010

As Malas no Corredor

Silêncio no andar. Só o barulho de pés e algumas sacolas arrastadas. Ele colocava 4 malas de couro sintético no corredor nitidamente guardadas há mais de trinta anos atrás de algum armário. Uma sacola grande com alguns sapatos velhos, uma TV fora de linha de 14 polegadas. Ela o ajudava com as sacolas pequenas recheadas de tranqueiras, papeis, alguns talheres e copos. Os dois estavam num silêncio que cortava até a respiração. Ele, cabisbaixo, fazia tudo de maneira que não estivesse entendendo. Ela, disfarçando um choro que já caira noites passadas, resignava-se com o inevitável. 

Trinta anos são muitos dias. Trinta anos são muitas noites. Trinta anos são muitas conversas, muitas tentativas, muitas desistências. Trinta anos foram toda a vida adulta dos dois. Tiveram um filho, Rodrigo, já casado e residente em outra cidade. Parece que a nora está grávida, seriam avós em pouco meses. Rodrigo não aparecia muito mas toda semana enviava fotos e novidades pela internet. Tiveram 2 cachorros. Uma cadela vira-lata linda chamada Princesa que morreu com 14 anos de velhice mesmo. Como Rodrigo sofreu na época! Adolescentes não lidam bem com separações para sempre. Depois de um tempo pegaram o Tobby, um labrador que fez a alegria da casa destruindo todos os móveis e fazendo companhia ao casal enquanto Rodrigo cursava faculdade na outra cidade. Tobby morreu semana passada, já com 13 anos de velhice mesmo. Há um ano Tobby estava se escondendo pela sala, comia mal e uivava quando o casal discutia. Acho que ele também sentia. Ninguém quer viver no meio de brigas e noites mal dormidas. Nem Rodrigo, nem Tobby. Nem ele, nem ela. Quer dizer, ele ainda queria tentar, em nome da netinha que estava por vir. Ela entendeu que não seria um bom motivo. E no corredor estavam os dois, as malas de couro sintético de 1980, as sacolas de sapatos e tranqueiras. Ele chamou o elevador e ficou olhando para o painel como numa contagem regressiva. Ela ficou na porta, respirou fundo e pediu que ele ficasse bem, se cuidasse, tomasse os remédios na hora certa e se alimentasse melhor, enquanto ele colocava toda bagagem dentro do elevador. "Cuide-se também Cecília", disse ele fechando a porta e nascendo para uma nova vida. "Ligue quando chegar para dizer que ficou tudo bem, Mário", disse ela, instintivamente, como só uma boa companheira diria, depois de trinta anos. 

4 comentários:

  1. Muito bom...
    Adorei o texto.

    Separação é uma droga.
    A pessoa sai da nossa vida mas a sensação da presença fica...às vezes de forma tão real que enlouquece.

    ResponderExcluir
  2. Cafeína, eu gosto quando você faz essas crônicas assim.

    ResponderExcluir
  3. Trocando em miúdos...a separação é uma grande merda.

    ResponderExcluir

Senta aí, aceita um café e comenta o que achou. A política dos comentários é simples: Todos aceitos salvo caso fortuito ou força maior, isto é, minha vontade. Caso prefira, temos também nosso link para CONTATO lá em cima.
;-)

Seguidores