17 de agosto de 2010

MEC envia a escolas públicas livro que narra estupro.

O assunto da semana passada foi a playboy da Cléo Pires, a briga de twiteiros mala, o esquecimento da Vanusa, a distribuição do um livro que narra o sequestro de um casal de namorados, seguido do estupro da garota e do assassinato do rapaz. Chamado Teresa, que Esperava as Uvas, o texto seguiu para bibliotecas de ensino médio em todo o país. Segundo a matéria do portal R7:
"A obra faz parte do Programa Nacional Biblioteca da Escola e estava sendo avaliado também pela Secretaria da Educação de São Paulo, que poderia adotá-lo em sua rede pública. O MEC (Ministério da Educação) afirma que a violência narrada em um dos contos do livro - Os Primeiros que Chegaram - não é nada além do que "estamos acostumados a ver, inúmeras vezes, nos jornais". A opinião consta em uma nota oficial enviada ao R7 pela SEB (Secretaria da Educação Básica do ministério).- Os alunos do ensino médio já têm uma formação intelecual que lhes permite refletir sobre a banalidade da vida a que estamos expostos cotidianamente, e essa é a proposta do conto...." 
"As cenas de violência estão presentes no conto "Os Primeiros que Chegaram", que narra, do ponto de vista da criminosa, um sequestro cometido por um casal. As vítimas são torturadas. Há frases como "arriou as calças dela, levantou a blusa e comeu ela duas vezes" e "[Zonha, o criminoso] deu um tiro no olho dele. [...] Ele ficou lá meio pendurado, com um furo na cabeça.  e "(...) Falou não vou comer teu cu não, veado, eu quero é a tua mulher e tu vai olhar e aprender a ser macho (...)".
O governo Lula, a autora da obra e a editora defendem a escolha, por possibilitar que o jovem reflita sobre a violência cotidiana. A escolha das obras é feita por comissões de professores de universidades públicas. "O livro passou por uma avaliação baseada em critérios, concorreu com muitas outras obras e foi selecionado", afirmou a escritora do conto, Monique Revillion." Folha de S.Paulo.
Ouvi a jornalista (que admiro) da Rádio Bandeirantes AM, Chiara Luzzati, entrevistando uma psicóloga envolvida  com a distribuição do livro. Chiara estava indignada com a escolha de um livro que narra a execução do estupro de forma tão "bruta". Ela mesma postou sobre o tema no seu blog, Laboratório de Temas. Durante a entrevista a psicóloga afirmou que proibir um livro seria censura e não poderíamos admitir isso. Comparou com cenas descritas de Jorge Amado. Arte é arte. 

Ocorre que, parece que estamos numa fase muito estranha neste mundo. A hipocrisia do politicamente correto versus a liberdade sem limites contra a sombra eterna da censura. Um período um pouco perdido conseqüência do que realmente pensamos e do que realmente seria o certo. Se é que existe o certo e o errado. Ganhamos o mundo com a tecnologia, a internet, a informação sem barreiras, a liberdade de expressão e não estamos sabendo fazer bom uso de tudo que ganhamos. Hoje qualquer limite é interpretado como censura, palavrão feio que traumatizou a todos nos tempos de ditadura. Os jovens de 15 a 18 anos (a quem os livros estão sendo distribuídos) já conhecem de perto a violência, seja dentro da escola, seja pela TV, seja dentro de casa. Talvez orientar fosse de melhor caminho. 

Seria ridículo ser contra a publicação de qualquer literatura e a autora não tem nada a ver com essa "polêmica" criada. Mas seria mesmo essa a melhor forma de orientação? Será mesmo que "Os alunos do ensino médio já têm uma formação intelectual que lhes permite refletir sobre a banalidade da vida a que estamos expostos cotidianamente...."? Os mesmos alunos que ainda não consegue interpretar um simples texto ou calcular uma conta de luz? Toda forma pedagógica vale a pena?

Talvez eu esteja realmente numa fase conservadora de valores (o que chamam de hipocrisia por aí), talvez eu esteja em dúvida quanto ao verdadeiro conceito do "bom senso" ou ainda talvez, esteja assistindo Dexter demais (recomendo a série e o post sobre o livro que o Andarilho fez!). Mas qual é a informação que nosso povo tão confuso de conceitos está recebendo? 

Enfim, estou curiosa e ansiosa para viver pelo menos até os próximos 30 anos para descobrir duas questões que costumam atrapalhar meu sono: "Nossas idéias de certo ou errado estavam perdidas? e "Esses cremes antiidade da Avon funcionam de verdade?"

9 comentários:

  1. Olha, se os jovens têm formação intelectual eu não sei, mas já deveriam ter nessa época. Quem não tiver ainda, provavelmente deve ter vivido numa bolha. E viver em bolhas tb traz (más) consequências.

    Essa história narrada ai parece a história que aconteceu há uns anos no litoral do PR. Com um casal jovem, inclusive.

    Esse papo de orientar, mas sem expor de verdade, não creio que funcione.

    Se a pessoa já estiver acostumada com esse ambiente violento, não vai se chocar. E se não estiver acostumada e achar q o mundo é rosa com unicórnios ou mesmo preto com dentuços brilhantes, é bom mesmo levar um choque de realidade. Não custa nada saber que o mundo é um lugar feio, muito feio. Pelo menos nos lugares em que os seres humanos estão.

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  2. Concordo com o Andarilho. Porque só falar não é tão forte como mostrar, dar exemplos. Sou estudante do ensino médio, e, pelo menos na minha escola, a minoria está em processo de amadurecimento. Talvez chocando os jovens, eles percebam que a vida não é só farra e comecem a correr contra o tempo perdido e pensar num futuro. Porque se eles não fizerem isso, a nossa realidade será como a contida no texto, creio eu. Se os jovens não acordarem pra vida o mundo só vai piorar. Portanto, aprovo a distribuição deste livro.

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  3. Acho muita hipocrisia proibir um livro desse. Se for assim, censura nos jornais e naqueles programas que escorrem sangue que passa na hora do almoço (eles mostram o presunto com a faca enfiada ainda, é bizarro. Tem isso aí em SP? Aqui no PR tem uns quantos, todos na hora do almoço, tão agradável!).
    Sem contar que os adolescentes de periferia conhecem bem essa realidade que tá no livro e todos, sem exceção, falam palavrões como aqueles que estão no livro. Você acha esse chocante? Lê o Feliz Ano Novo do Rubem Fonseca. Dá um nó no estômago. Não pela linguagem, pelas descrições e fatos narrados, mas por saber que isso existe mesmo. Mostrar e discutir isso ainda é o melhor caminho, e não ficar fazendo de conta que o mundo é um lugar lindo e que as pessoas são todas educadas e bondosas.
    Botei fé na guriazinha ali de cima!

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  4. nada melhor do que ler comentários que se interessam pelo tema
    ;-)

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  5. Sinceramente, não vejo nada demais em um livro que contenha estas palavras e estas situações. De uns tempos para cá entramos numa onda errada de preservar excessivamente a criança e o adolescente de certas coisas ao mesmo tempo em que os expomos a situações muito piores em casa, na escola, na vida.
    Só para lembrar uma coisa interessante, no conto de fadas original da Chapeuzinho Vermelho, o caçador mata o lobo, o estripa, tira de dentro dele a avó da menina, enche o cadáver do lobo de pedras e tijolos e o atira no fundo do rio.
    Não sei se privar a juventude de LER isso a impedirá de PASSAR por isso, ou pior, FAZER isso. Por que não reprimem as bailarinas de axé music de rebolar eroticamente na TV? Ou a galera do funk? Por que não reprimem a transmissão ao vivo do Carnaval carioca com as mulatas todas seminuas? A erotização prematura do indivíduo é um troço perigoso. Mas estas coisas dão dinheiro...
    Outro dia reprimiram também algumas histórias em quadrinhos porque continham blasfêmia, sexo, etc. Onde vamos parar? Quais são os critérios? Em qual estatuo escolhido pelo povo está escrito que isso pode e isso não? O que permite a promiscuidade dos personagens de Jorge Amado e não a de outros autores, por exemplo?
    Não sei. Só sei que concordo com você quando diz que fazemos mau uso da liberdade que adquirimos, e acabamos focando em coisas muito menos perigosas.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Issoaê
    caros companheiros d comentários e palpites rs

    Acho válida a experiência, afinal o q se ganhou em décadas d escolaridade tradicional?

    não q eu acredite q escola seja em qq lugar do mundo algo isolado do meio q está inserida ou q d alguma forma prepare as pessoas (segundo o interesse dessas) pra encarar o mundo mas enfim, se no Xingú os irmãos Villas Boa já narravam q indiozins e indiazinhas c/5-6 anos d idade já podiam se virar no meio ambiente q circundava as aldeias, no caso a Selva, coisa aliás comum nas sociedades caçadoras-coletoras espalhadas pelo planeta; pq não conseguimos sequer algo remotamente parecido, mesmo setorialmente, relativo às "Selvas d Pedra" mundo civilizado afora?

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  8. Pacha Urbano curtiu o comentário de Marko Acosta.

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  9. Não tenho muito mais com o que contribuir, apenas que acredito de fato que a adoção do livro deva ser mantida sim. Mesmo porquê, esses mesmos jovens já estão espostos a coisas bem píores que a narrativa desse conto - baseio-me nos trechos enuciados acima - vide assaltos, tráfico de drogas, violência doméstica, tantas vezes noticiados na mídia como um todo. (E isso sem citar, claro, Cine, Restart, Hóri e tantos outros entorpecentes e emburrecedores mentais - desculpa, não podia perder a piada!)
    Enfim, uma boa dose de realidade não faz mal a ninguém!

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